Cams.

Camila C. Crosgnac Fracalossi, sagitário, 17 de dezembro de 1990. Médica veterinária, escritora, servidora pública e casada com o Rodrigo. Mãe do Kovu, da Lassie e do Bóris.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Ensaio sobre o mundo em que vivemos.

Escrevo mesmo sabendo que ninguém mais lê - e principalmente sabendo que ninguém mais lê, porque esse é o maior dos problemas.


Recentemente, o mundo anda louco – e esquecido. Regimes totalitários e “filosofias” racistas e violentas têm reaparecido numa sociedade que já não consegue se lembrar – ou pior: nega a existência – da história contemporânea.

Desde criança, eu ouço sobre “a guerra”. Meus avós maternos, nascidos nos anos 1920, tinham idade suficiente para entender a Segunda Guerra enquanto ela ocorria, tal como suas consequências – mesmo as que sofriam aqui do Brasil, de maneira indireta. Eles sempre me falaram dela. Meu avô Eno, em específico, me ensinou muito sobre geopolítica, no geral. Mesmo não sendo (oficialmente) estudado, ele lia sobre o assunto e me influenciou a gostar também.

Eu também nunca fui uma criança muito normal: enquanto as outras se prendiam aos universos das princesas Disney, eu o dividia com algumas dessas leituras do meu avô e da revista Superinteressante, que meu pai assinou por algum tempo. Em plena época pós-guerra fria, entre 1995 e 1996, muitas revistas falavam sobre novos potenciais conflitos e citavam a guerra biológica como uma nova “tendência”. Dentre as doenças mais graves que tínhamos na época, muito se falava também do Ebola. Aos cinco anos, quando me perguntavam o meu maior medo, era essa minha resposta: eu tinha medo do Ebola – e eu sabia exatamente o que era um vírus e como a doença funcionava.

Viver numa sociedade como a nossa, atualmente, sendo profissional de saúde e tendo vivenciado e trabalhado diretamente numa Pandemia (criando planos de contingência, acompanhando casos da suspeita às primeiras confirmações, treinando equipes e atuando no controle epidemiológico) tendo uma consciência de mundo mais ampla do que eu gostaria – coisa que, feliz ou infelizmente, nem todo profissional de saúde tem – acaba sendo pavoroso para mim. Vivo num cenário assustador onde enxergo potenciais armas biológicas com facilidade e crio cenários mentais medonhos. Se eu, sem intenção alguma, sou capaz de maquinar tudo isso, como não seriam igualmente capazes aqueles com más intenções?

Modéstia à parte, tenho plena noção de que estou acima da média em várias questões intelectuais – por capacidade, oportunidade e interesses. Mas reconheço também a insignificância que tenho: não sou ninguém importante e muito menos tenho voz para alguma coisa – seja para o bem, seja para o mal. Mesmo assim, uso diariamente minhas palavras e meu espaço no mundo para tentar levar mensagens de paz e reflexão para a sociedade, acreditando que, mesmo a minha expressão nesse mundo sendo ínfima, eu posso ser ouvida por alguém.

Voltando à minha infância e adolescência, o Holocausto sempre foi algo inimaginável para mim – e, quando eu finalmente o estudei na escola, muitos porquês se formaram na minha cabeça, e embora as respostas estivessem ali, eram tão inaceitáveis quanto incabíveis. Foi quando conheci as histórias de Olga Benário e Anne Frank.

A história de Olga é de alguma forma tão presente e próxima, como “brasileira honorária”, que me tocou profundamente e me fez sentir como se tivesse acontecido ao meu lado – embora sessenta anos antes do meu nascimento; e a de Anne me embrulhou o estômago por milhares de vezes durante a vida. O Diário de Anne Frank é um dos livros que mais li na vida, além da oportunidade de adaptá-lo a uma peça de teatro e dirigi-la em 2008 durante o Ensino Médio.

Na primeira vez que conheci Anne, tínhamos perto da mesma idade – 13 anos. Reli O Diário por cerca de 5 a 6 vezes apenas durante o Ensino Médio, buscando por mais respostas e encontrando cada vez mais perguntas. Entender que uma menina como eu não teve o direito à vida por ser quem era simplesmente ferrava com a minha cabeça adolescente. A falta de liberdade de existir no mundo é o maior absurdo possível, na minha concepção, e algo que eu nunca vou aceitar. Não poder se expressar, não ter o direito de ser... como alguém pode aceitar – ou pior, criar esse tipo de proibição?

Hoje, com 35 anos, eu não posso dizer que entendo melhor o mundo: eu apenas o conheço melhor, e ele muitas vezes me dá asco. Assistir um “presidente” de uma nação interferir na soberania de outra já é um absurdo per se, mas vê-lo propagando ideais supremacistas, como se aquilo fosse superior em qualquer coisa exceto pelo seu poder econômico pessoal e sua impunidade de trilhões de dólares, me enoja, assusta e adoece de uma forma que minha própria situação socioeconômica nesse mundo não me permite saber lidar – mas é como disse um amigo uma vez: doente é quem não fica doente vivendo nesse mundo, né?

Tem horas que eu só queria acordar dessa realidade, receber a notícia de que tudo isso não passa de uma pegadinha ou um experimento social de muito mau gosto, sei lá. Li por esses dias um livro de thriller psicológico com uns assuntos pesados que sinceramente foi bem menos indigesto do que o documentário sobre Hitler que assisti com meu marido. Poder diferenciar a ficção da realidade seria maravilhoso se algumas realidades não fossem tão absurdas e disseminadas cada dia com mais naturalidade. O que houve com a humanidade, afinal? O que houve com a nossa humanidade? O mais assustador é ver ideias como essa sendo alastradas entre a juventude – crianças com a mesma idade de Anne, que infelizmente já não conhecem os livros (e a história do mundo em que vivem) porque se tornaram fisicamente incapazes de aguentar vídeos com mais de um minuto de conteúdo – quem dirá um documentário, ou as próprias aulas. Professores são diariamente censurados por pais ideologistas que são o orgulho da nação, o projeto perfeito de emburrecimento criado pela política do patriota que odeia a cultura e o povo brasileiro, que bate continência para a bandeira alheia e despreza o conhecimento. O que a juventude vai aprender? Estamos cada dia mais fadados a ver moleques de 15 anos pedindo a monarquia no Brasil – nicho que eu descobri nas últimas eleições e demorei dias para acreditar que aquilo não era mais um meme cibernético.

Digo veementemente que sonho com um dia em que eu possa enfim receber o diagnóstico da esquizofrenia – e que algumas pílulas sejam capazes de fazer todo mundo voltar a ter vergonha de ser burro, violento, preconceituoso, mau-caráter e falar coisas tão esdrúxulas e estapafúrdias em voz alta. Infelizmente a minha saúde mental, embora afetada pela depressão e pela ansiedade, está bem demais – dentro das possibilidades que o mundo atual permite – e o mundo é essa merda mesmo, sem tirar nem pôr.

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