Escrevo mesmo sabendo que ninguém mais lê - e principalmente sabendo que ninguém mais lê, porque esse é o maior dos problemas.
Recentemente, o mundo anda louco – e esquecido.
Regimes totalitários e “filosofias” racistas e violentas têm reaparecido numa
sociedade que já não consegue se lembrar – ou pior: nega a existência – da história
contemporânea.
Desde criança, eu ouço sobre “a guerra”. Meus
avós maternos, nascidos nos anos 1920, tinham idade suficiente para entender a
Segunda Guerra enquanto ela ocorria, tal como suas consequências – mesmo as que
sofriam aqui do Brasil, de maneira indireta. Eles sempre me falaram dela. Meu
avô Eno, em específico, me ensinou muito sobre geopolítica, no geral. Mesmo não
sendo (oficialmente) estudado, ele lia sobre o assunto e me influenciou a
gostar também.
Eu também nunca fui uma criança muito normal:
enquanto as outras se prendiam aos universos das princesas Disney, eu o dividia
com algumas dessas leituras do meu avô e da revista Superinteressante, que meu
pai assinou por algum tempo. Em plena época pós-guerra fria, entre 1995 e 1996,
muitas revistas falavam sobre novos potenciais conflitos e citavam a guerra
biológica como uma nova “tendência”. Dentre as doenças mais graves que tínhamos
na época, muito se falava também do Ebola. Aos cinco anos, quando me
perguntavam o meu maior medo, era essa minha resposta: eu tinha medo do Ebola –
e eu sabia exatamente o que era um vírus e como a doença funcionava.
Viver numa sociedade como a nossa, atualmente,
sendo profissional de saúde e tendo vivenciado e trabalhado diretamente numa
Pandemia (criando planos de contingência, acompanhando casos da suspeita às
primeiras confirmações, treinando equipes e atuando no controle epidemiológico)
tendo uma consciência de mundo mais ampla do que eu gostaria – coisa que, feliz
ou infelizmente, nem todo profissional de saúde tem – acaba sendo pavoroso para
mim. Vivo num cenário assustador onde enxergo potenciais armas biológicas com
facilidade e crio cenários mentais medonhos. Se eu, sem intenção alguma, sou
capaz de maquinar tudo isso, como não seriam igualmente capazes aqueles com más
intenções?
Modéstia à parte, tenho plena noção de que estou
acima da média em várias questões intelectuais – por capacidade, oportunidade e
interesses. Mas reconheço também a insignificância que tenho: não sou ninguém
importante e muito menos tenho voz para alguma coisa – seja para o bem, seja
para o mal. Mesmo assim, uso diariamente minhas palavras e meu espaço no mundo
para tentar levar mensagens de paz e reflexão para a sociedade, acreditando
que, mesmo a minha expressão nesse mundo sendo ínfima, eu posso ser ouvida por
alguém.
Voltando à minha infância e adolescência, o
Holocausto sempre foi algo inimaginável para mim – e, quando eu finalmente o
estudei na escola, muitos porquês se formaram na minha cabeça, e embora as
respostas estivessem ali, eram tão inaceitáveis quanto incabíveis. Foi quando
conheci as histórias de Olga Benário e Anne Frank.
A história de Olga é de alguma forma tão presente
e próxima, como “brasileira honorária”, que me tocou profundamente e me fez sentir
como se tivesse acontecido ao meu lado – embora sessenta anos antes do meu
nascimento; e a de Anne me embrulhou o estômago por milhares de vezes durante a
vida. O Diário de Anne Frank é um dos livros que mais li na vida, além da
oportunidade de adaptá-lo a uma peça de teatro e dirigi-la em 2008 durante o
Ensino Médio.
Na primeira vez que conheci Anne, tínhamos
perto da mesma idade – 13 anos. Reli O Diário por cerca de 5 a 6 vezes
apenas durante o Ensino Médio, buscando por mais respostas e encontrando cada
vez mais perguntas. Entender que uma menina como eu não teve o direito à vida
por ser quem era simplesmente ferrava com a minha cabeça adolescente. A falta
de liberdade de existir no mundo é o maior absurdo possível, na minha
concepção, e algo que eu nunca vou aceitar. Não poder se expressar, não
ter o direito de ser... como alguém pode aceitar – ou pior, criar
esse tipo de proibição?
Hoje, com 35 anos, eu não posso dizer que
entendo melhor o mundo: eu apenas o conheço melhor, e ele muitas vezes
me dá asco. Assistir um “presidente” de uma nação interferir na soberania de
outra já é um absurdo per se, mas vê-lo propagando ideais supremacistas,
como se aquilo fosse superior em qualquer coisa exceto pelo seu poder
econômico pessoal e sua impunidade de trilhões de dólares, me enoja, assusta e
adoece de uma forma que minha própria situação socioeconômica nesse mundo não me
permite saber lidar – mas é como disse um amigo uma vez: doente é quem não fica
doente vivendo nesse mundo, né?
Tem horas que eu só queria acordar dessa
realidade, receber a notícia de que tudo isso não passa de uma pegadinha ou um
experimento social de muito mau gosto, sei lá. Li por esses dias um livro de thriller
psicológico com uns assuntos pesados que sinceramente foi bem menos indigesto
do que o documentário sobre Hitler que assisti com meu marido. Poder diferenciar
a ficção da realidade seria maravilhoso se algumas realidades não fossem tão absurdas
e disseminadas cada dia com mais naturalidade. O que houve com a humanidade,
afinal? O que houve com a nossa humanidade? O mais assustador é ver ideias
como essa sendo alastradas entre a juventude – crianças com a mesma idade de
Anne, que infelizmente já não conhecem os livros (e a história do mundo em que
vivem) porque se tornaram fisicamente incapazes de aguentar vídeos com mais de
um minuto de conteúdo – quem dirá um documentário, ou as próprias aulas. Professores
são diariamente censurados por pais ideologistas que são o orgulho da nação, o
projeto perfeito de emburrecimento criado pela política do patriota que odeia a
cultura e o povo brasileiro, que bate continência para a bandeira alheia e despreza
o conhecimento. O que a juventude vai aprender? Estamos cada dia mais fadados a
ver moleques de 15 anos pedindo a monarquia no Brasil – nicho que eu descobri
nas últimas eleições e demorei dias para acreditar que aquilo não era mais um meme
cibernético.
Digo veementemente que sonho com um dia em que
eu possa enfim receber o diagnóstico da esquizofrenia – e que algumas pílulas
sejam capazes de fazer todo mundo voltar a ter vergonha de ser burro, violento,
preconceituoso, mau-caráter e falar coisas tão esdrúxulas e estapafúrdias em
voz alta. Infelizmente a minha saúde mental, embora afetada pela depressão e pela
ansiedade, está bem demais – dentro das possibilidades que o mundo atual
permite – e o mundo é essa merda mesmo, sem tirar nem pôr.



